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17/09/2019 - Alta de tarifa de cartão supera inflação

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VALOR

Por: Nathália Larghi 

Com o surgimento de fintechs e bancos digitais, o número de emissores de cartões de crédito no Brasil tem crescido bastante. Mas se muitas dessas empresas oferecem cartões sem anuidade, ainda existe um número alto de clientes que paga para ter o produto. E, pior, as tarifas estão ficando mais caras, contrariando a lógica de que, quanto mais empresas oferecem um produto, mais barato ele fica.

Segundo dados do Banco Central, somadas as seis principais bandeiras do país (Visa, Mastercard, American Express, Diners Club, Elo e Hipercard), a anuidade média praticada em seus cartões ao longo de 2018 foi de R$ 139,45. Esse número é 13,4% maior do que a média de 2017 e está 15,1% acima do registrado em 2016.

Sem o aumento da competição, o cenário poderia ser pior. Levando-se em conta as duas maiores bandeiras do mercado (Visa e Mastercard), a anuidade média chegou a R$ 156,80 em 2018. No fim de 2017, era de R$ 147,90. A alta foi de 6%. Apesar de o aumento percentual ser menor, em termos absolutos é mais dinheiro para ter o cartão.

Contando que a inflação ficou na média em 3,66% entre 2017 e 2018, a alta das anuidades foi muito maior do que o aumento geral dos preços. Os dados do BC são informados pelos emissores dos cartões e consideram a média de todas as anuidades efetivamente pagas, sem incluir os casos em que houve isenção de 100% da tarifa.

O levantamento do BC mostrou ainda que os cartões de quatro das principais bandeiras tiveram aumento no valor médio da anuidade no ano passado. O preço médio praticado nos cartões da Visa em 2018 foi de R$ 146 ante R$ 138 de 2017. Na Mastercard, subiu de R$ 157 para R$ 167. Na Elo, foi de R$ 57 para R$ 75 e, na American Express, o valor mais que dobrou: saiu de R$ 69 para R$ 144, o que explica parte da alta da média geral.

No caso da American Express, a mudança faz parte de um posicionamento da marca em voltar a atender apenas clientes de alta renda, explica Fabrício Winter, sócio da consultoria Boanerges & Cia, especializada no mercado de cartões. Segundo o consultor, esses usuários geralmente têm cartões de categorias mais altas e, consequentemente, anuidade maior.

Apenas Diners e Hipercard tiveram queda no valor médio de suas anuidades. Na primeira, a tarifa teve redução mínima, de R$ 156,5 para R$ 154,9. Já na segunda, saiu de R$ 158,3 para R$ 147,8.

Winter afirma que a anuidade pode ter aumentado por demanda mais forte. "No fim do ano, que é época de compras, por exemplo, mais gente pede cartão de crédito, então são feitas emissões com anuidades mais altas. E como o cliente que pede, ele precisa do produto, ele acaba pagando o valor cobrado", diz. Ele explica ainda que, com a recuperação (ainda que gradual) da economia, mais pessoas passaram a usar o produto.

Outra explicação para a alta da anuidade média praticada é o que Winter chama de "platinização dos cartões", em que o emissor sugere ao cliente trocar seu cartão por outro de uma categoria mais alta, como a Platinum, de olho nos benefícios, como um programa de pontos mais vantajoso. A anuidade, no entanto, aumenta. "Mas é claro que tudo depende de quanto a demanda aceita esse movimento e, nos últimos anos, estamos vendo que o cliente não tem se incomodado", afirma.

O especialista reconhece que os emissores tradicionais, como os grandes bancos de varejo do país, têm oferecido produtos mais baratos, como cartões que "zeram" a anuidade se o cliente gastar mais de um determinado valor por mês ou até mesmo cartões sem taxas. Ele afirma, porém, que esses produtos são destinados a classes específicas de correntistas.

"Eles têm esses produtos para concorrer com empresas como o Nubank [fintech de cartões com anuidade zero]. Mas o banco continua apostando no marketing dele. Para um cliente com outro perfil, de renda maior, por exemplo, ele continua oferecendo um produto com anuidade, que tenha outras características."

Ele acredita, contudo, que a tendência é que os cartões de crédito realmente barateiem. "Vamos ver um acirramento cada vez maior na competição. E é provável que, com outros bancos, principalmente os digitais, e fintechs colocando mais produtos no mercado, os emissores tradicionais precisem baratear seus produtos", diz.

Apesar de os bancos não mostrarem em seus balanços trimestrais o quanto eles ganham apenas com anuidade de cartões de crédito, as receitas provenientes de "tarifas com cartões" não mostram uma tendência clara. Enquanto Itaú Unibanco e Caixa Econômica Federal mostraram uma queda no último trimestre de 2018 ante o mesmo período de 2017, Santander e Banco do Brasil tiveram alta. No Bradesco, o valor ficou estável.

Procurados, Banco do Brasil, Santander e Bradesco não comentaram. A Caixa disse que "tem na sua política de anuidade a cobrança de acordo com os benefícios ofertados", além de um "portfólio amplo atendendo desde os clientes que não querem pagar anuidade até os que desejam um cartão mais completo". Já o Itaú informou que "o valor da anuidade dos cartões varia de acordo com os custos envolvidos na operação do negócio - especialmente os relacionados aos serviços prestados aos clientes e uso pelos portadores".

Visa e Mastercard também foram procuradas, mas disseram que a política é dos emissores.

Para o professor de finanças Rafael Schiozer, da Fundação Getulio Vargas (FGV), muitas vezes o cliente nem sabe que paga para ter o cartão. "Às vezes ele está pagando a anuidade na fatura, diluída mensalmente, e nem se deu conta de que ela é cara. "Épreciso saber o quanto você está pagando para ter aquele plástico", afirma.

Uma dica para pagar menos, segundo o professor, é negociar com o banco. "Muitas vezes o banco coloca aquela anuidade, mas se o cliente ligar e tentar negociar, ele consegue um bom desconto, às vezes até de 100% do valor, dependendo de quanto usa, do valor que ele tem investido", diz.

O professor sugere também cortar cartões "excedentes". "Tem gente que tem por segurança, caso precise de empréstimo. Mas é preciso lembrar que o cartão de crédito é a pior linha em termos de taxa de juros. Então, acho que não é uma boa política ter cartão por segurança", afirma. Por fim, Schiozer aconselha que o cliente calcule bem se o custo/benefício do cartão vale a pena. Ele explica que muitas vezes o cliente paga uma determinada anuidade por um programa de pontos mas, no fim das contas, não usa os benefícios. "Nesse caso, vale trocar por um com anuidade zero, por exemplo", diz.

 

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