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14/05/2019 - Disputa em cartões afeta receita de bancos

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VALOR

Por Talita Moreira e Flávia Furlan

O aperto na concorrência entre as credenciadoras de cartões se fez notar nos balanços dos bancos, que já esperam um novo patamar - mais baixo - nas margens dessa atividade.

O sinal mais visível veio do Itaú Unibanco, que reduziu a estimativa de crescimento das receitas com prestação de serviços neste ano e atribuiu a mudança à "guerra das maquininhas". Em vez dos 3% a 6% de expansão previstos anteriormente, o banco passou a trabalhar com uma alta de 2% a 5% no indicador.

"Você não pode se dar ao luxo de preservar margens e perder participação de mercado", afirmou o presidente do Itaú, Candido Bracher, em teleconferência com analistas na sexta-feira.

A Rede, credenciadora de cartões do Itaú, anunciou a decisão de zerar a taxa de antecipação de recebíveis para os pequenos e médios lojistas e fazer o pagamento dois dias após a venda. A condição é que os estabelecimentos tenham conta no banco. O impacto estimado da medida está entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões na receita da empresa neste ano, segundo cálculo feito pelo Valor a partir da mudança nas projeções de receita com serviços.

Itaú e Rede não estão sozinhos. A Getnet, do Santander; a Cielo, controlada pelo Bradesco e pelo Banco do Brasil (BB); e a Safra Pay, do banco Safra, também reduziram taxas e prazos de pagamento a lojistas e pequenos empreendedores. Com isso, apertaram a concorrência às credenciadoras independentes Stone e PagSeguro, do grupo UOL, que lideram nesses nichos do mercado e têm boa parte de seu faturamento atrelado ao negócio de antecipação de recebíveis.

A reação das empresas ligadas a bancos abriu um novo round na forte concorrência entre as empresas do setor e lançou questionamentos sobre o impacto que terá nos resultados de credenciadoras e instituições financeiras. Não por acaso, o assunto concentrou boa parte das perguntas de analistas nas teleconferências promovidas por Itaú, Bradesco e Santander para comentar os balanços do primeiro trimestre.

A visão dos bancos é que as margens da atividade de credenciamento, que já foram de quase 50% nos tempos de duopólio entre Cielo e Rede, caminham para algo entre 15% e 20% - mais próximas do que se vê em mercados como o americano.

"Contra fatos, não há argumentos: num segmento com maior concorrência, é natural que tenha perda de resultados", afirmou o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Jr.

No banco da Cidade de Deus, a receita com prestação de serviços cresceu apenas 2,4% no primeiro trimestre do ano, para R$ 8,074 bilhões. Ficou abaixo da faixa projetada pela instituição, que prevê crescimento anual de 3% a 7%.

De acordo com Lazari, uma piora nos números da Cielo já foi prevista no orçamento do banco para este ano e a expectativa é que o resultado da empresa só comece a se recuperar em 2020.

Líder no mercado, a credenciadora vem perdendo participação para novas entrantes e agora, sob o comando de Paulo Caffarelli, adotou uma postura comercial mais agressiva para recuperar terreno sacrificando margens.

A contribuição da Cielo para o lucro do Bradesco caiu de 6%, no primeiro trimestre do ano passado, para 2,6% no mesmo período deste ano. "Diria que, em termos de impacto financeiro, o pior já passou", afirmou o diretor de relações com investidores do banco, Leandro Miranda.

Para Sergio Rial, presidente do Santander, a disputa entre as credenciadoras aperta as margens de todo o setor, mas é boa para o consumidor e é reflexo de um ambiente de taxas de juros mais baixas no país. "Todo o sistema está sob pressão em relação à margem, por isso é importante falar em eficiência, principalmente quando não se tem o PIB crescendo como gostaríamos", disse a jornalistas.

Mais nova entre as credencidoras dos grandes bancos, a Getnet ainda ganha participação de mercado. A empresa tem feito uma aposta significativa no comércio eletrônico e tem se beneficiado de uma oferta bem amarrada do Santander para pequenas empresas. "O objetivo é alavancar as vendas desse produto junto com outros", disse a analistas o vice-presidente financeiro do banco, Angel Santodomingo.

Uma das estratégias do Santander é a criação do que Rial chamou de "ecossistemas", com pacotes combinando crédito, maquininhas e produtos de conta corrente a determinados grupos de clientes. Exemplo disso é uma parceria com a Natura para financiar e credenciar revendedores da empresa de cosméticos.

A Getnet se tornou uma alavanca de negócios para o Santander, e ganhou importância na estratégia do banco. Em dezembro, a instituição financeira comprou a fatia de 11,5% do capital da empresa que ainda não possuía, pagando por ela R$ 1,4 bilhão.

As credenciadoras ganharam relevância adicional para os grandes bancos no pós-crise econômica - quando a prioridade tem sido crescer no crédito a pessoas físicas e pequenas empresas para compensar a tendência de queda dos spreads e o encolhimento da carteira de grandes empresas. Até mesmo a Caixa, que não tem uma empresa própria de maquininhas, vai selecionar um parceiro na área com o objetivo de se aproximar de empreendedores e estabelecimentos comerciais.

A investida mais recente das credenciadoras ligadas a bancos fez com que as empresas independentes voltassem a reclamar da verticalização do setor. A Abipag, associação que reúne adquirentes como Stone, First Data e Global Payments, recorreu ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para apontar supostas práticas anticompetitivas da Rede e do Itaú. A Rede, por sua vez, impetrou ação judicial acusando de difamação Augusto Lins, presidente da Abipag e da Stone.

Para Bracher, do Itaú, o argumento de que o banco usa sua força financeira para sustentar resultados negativos na credenciadora não se sustenta. "É importante dizer que a receita da Rede vai se reduzir, mas continua sendo uma companhia lucrativa, assim como a operação com os clientes que antecipam o recebimento também é rentável para o banco", disse. "Se houvesse grandes compensações de receita, não precisaríamos ter mexido na projeção [de receita de serviços]."

O pagamento aos lojistas em 30 dias era uma herança dos tempos de inflação alta, afirmou Bracher, e a redução desse prazo é inevitável. "O Brasil é que tinha uma posição estranha de 'D+30'", disse. "Antecipamos uma tendência que nos parecia e nos parece inexorável."

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