Museu do Cartão de Crédito

27/03/2019 - Bancos lançam parcelado com juro no cartão

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VALOR 

Por: Flávia Furlan 


Os bancos estão lançando uma nova forma de crediário pelo cartão de crédito, contratado diretamente no momento da compra pelas “maquininhas”, com taxas de juros a partir de 0,99% ao mês e prazo de até 36 meses. O discurso do setor é de que a modalidade vem como uma nova opção ao consumidor, que hoje recorre ao crédito dado pelo lojista ou o crédito direto ao consumidor (CDC).

Na prática, no entanto, o objetivo é desincentivar o uso do parcelado sem juros, que traz riscos para os emissores de cartões, mas sem uma remuneração adicional, e que distorce os preços do mercado. “Nos EUA, 70% do volume transacionado em cartão é financiado. Já no Brasil, são 23%, porque o cartão não é o melhor meio de financiamento, mas sim o consignado e outras modalidades de crédito”, diz Pedro Coutinho, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), em entrevista de divulgação do balanço do setor nesta terça em São Paulo. “Estamos lançando um produto que atende às necessidades dos consumidores e que pode incentivar o crescimento dos varejistas”, completou.

O mercado reconhece que o brasileiro está acostumado com o parcelado sem juros e que há um desafio cultural em emplacar uma nova forma de pagamento. Mas, de acordo com uma fonte ouvida pelo Valor, o parcelado sem juros distorce as taxas de mercado. “Hoje, mais de 70% das transações com cartão são à vista ou parcelado sem juros, o que significa que o emissor só ganha com a taxa de intercâmbio e não com o pagamento de juros, enquanto ele mantém as despesas”, diz a fonte. “Isso significa que, nas transações com juros, ele precisa compensar, causando um subsídio cruzado.” Segundo essa mesma fonte, o novo produto vem para reequilibrar essa equação.

O Santander lança o crediário na maquininha para os portadores de seus cartões no dia 1 de abril, com taxa a partir de 1,99% ao mês e prazo de até 36 meses. Num primeiro momento, o cliente terá à disposição para uso no crediário o mesmo valor que tem de limite no cartão de crédito, mas futuramente o banco pode ampliar o limite para uso no crediário. “A experiência é melhor do que em outras modalidades porque o limite já está concedido e o cliente não precisa passar por um processo de aprovação de crédito”, explica Rodrigo Cury, diretor de cartões do Santander.

A expectativa do executivo é que o mercado leve até seis meses para se acostumar com a nova modalidade, que deve começar a ficar relevante a partir de 2020. “Ficaria satisfeito com uma fatia de 10% das transações com cartões de crédito nessa modalidade já no ano que vem”, diz.

O Bradesco iniciou os pilotos com as adquirentes e bandeiras do produto em novembro de 2018, mas só disponibilizou o produto para uso dos clientes em fevereiro deste ano. No banco, as taxas variam de 0,99% a 3,99% ao mês, com o prazo variando de dois a 24 vezes.

O Itaú informou que o prazo de parcelamento será, inicialmente, de até 24 meses, mas não quis anunciar as taxas.

O Banco do Brasil informou que não vai comentar o assunto.

De início, o crediário concedido via cartão de crédito pode ter taxas mais atrativas do que o do lojista e do que o empréstimo direto do banco. Segundo dados da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), os juros do comércio estavam em 5% ao mês na média em fevereiro deste ano, enquanto os dos empréstimos bancários estavam em 3,7%. No entanto, segundo o Valor apurou, o mercado acredita que o preço ideal do crediário concedido via cartão de crédito seja de 5% em média ao mês. Na disputa com o crediário do lojista, que dura até um ano, o financiamento por meio do cartão ganha no prazo maior, de até 36 meses. O empréstimo bancário pode ter prazo superior. Frente às duas modalidades, porém, o crediário do cartão se destaca por ter um limite já pré-aprovado.

Nessa nova modalidade, o varejista pode receber o dinheiro da transação de uma vez já no segundo dia em que a compra for realizada. Segundo o Valor apurou, as credenciadoras Rede e Getnet vão oferecer essa possibilidade. “Seria como uma operação com o cartão de débito, em que o varejista recebe de uma vez e é descontado de uma taxa por transação”, explica Rodrigo Carneiro, diretor da Rede. “Já os emissores, por sua vez, vão recebendo o dinheiro com juros à medida que as parcelas forem vencendo”, completou.

Dessa forma, os emissores ficam com o risco da operação, mas são remunerados por isso. É diferente do que ocorre com o parcelado sem juros, em que o varejista precisa esperar as parcelas vencerem para ir recebendo. Ou então até podem antecipar o recebimento, mas mediante uma taxa de desconto.

De acordo com Ricardo Vieira, vice-presidente da Abecs, a modalidade vai beneficiar principalmente o pequeno e médio lojista, que vai receber os recursos todos de uma vez e, além disso, vai poder oferecer o financiamento do banco pelo cartão de crédito aos seus clientes.

“O varejista pode até dar desconto no valor do produto, uma vez que está recebendo à vista os recursos da compra parcelada. Quando ele parcela, mas antecipa para receber tudo de uma vez, ele acaba sendo taxado e repassa essa conta ao consumidor”, disse. Uma lei de 2017 permite ao varejista diferenciar os preços das compras à vista ou a prazo.

 

 

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