Museu do Cartão de Crédito

18/02/2019 - "Nosso grande combate é contra o dinheiro"

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ISTOÉ DINHEIRO 

Por: Renata Victal 

No comando da operação brasileira da multinacional americana Visa, Fernando Teles acredita que é possível desburocratizar as transações financeiras no País, tornando-as mais simples, rápidas e seguras. Para isso, o grupo tem investido em transações sem contato — via pulseira, celular ou aproximação do cartão da máquina de cobrança. Nos próximos meses, a empresa lança um sistema de pagamento para o transporte público que pretende popularizar ainda mais o dinheiro digital entre os brasileiros.

DINHEIRO – Fala-se muito que o brasileiro não tem educação financeira. Isso é verdade? Qual a importância de adquirir essa educação?
TELES – É extremamente importante. Temos uma iniciativa chamada “Finanças Práticas”, com um aplicativo e um chatbot (programa que simula o atendimento humano) para instruir as pessoas sobre a melhor forma de se planejar. Fizemos um estudo sobre o uso do cartão de débito com entrevistas em profundidade, fomos para as casas das pessoas para conhecer a jornada delas. Descobrimos várias “lendas urbanas”. Tem quem acredite que, se perder o cartão de débito, perderá todo dinheiro da conta corrente. Outros acham que o dinheiro físico permite muito mais controle. Mas como assim? Quando uma pessoa faz uma compra no cartão de débito, ela consegue saber exatamente quanto gastou em cada lugar. Temos de educar.

 

DINHEIRO – Um dos problemas é que as pessoas ainda têm dúvidas quando à segurança do sistema. Como convencê-las?
TELES – O cartão de débito sempre foi bem aceito no Brasil, mas sempre foi uma transação com senha, presencial. A aceitação do débito na internet não evoluiu. E agora temos um sistema de autenticação que é diferente da autorização. A autorização vê se a pessoa tem saldo, se o limite está ok. A autenticação diz que aquela pessoa é ela mesma, evitando fraudes. Com as informações que a gente tem e os algoritmos de inteligência, consigo fazer isso com uma certeza infinitamente maior do que antes. Analiso em um tempo muito curto quais são os hábitos de uso da pessoa, o tipo de navegação que ela usa, entre outros. Se tiver dúvida, posso mandar uma mensagem para o celular dela, em tempo de transação, e pedir uma selfie ou que ela coloque a digital no celular. Isso elimina o medo.


DINHEIRO – Qual o maior desafio da bancarização no Brasil?
TELES – São dois. Um deles é ciclo de crédito. Passamos alguns anos com um ciclo restrito e isso só está melhorando agora. O outro desafio é esse movimento da sociedade, dos agentes financeiros que querem deixar o dinheiro e migrar para o pagamento eletrônico, seja débito ou crédito. Quando todo mundo entender que o dinheiro físico é mais caro — pela manutenção, manuseio, risco, por incitar a corrupção, sonegação e a informalidade —, a gente vai dar passo muito importante.


DINHEIRO – Qual seu maior desafio na Visa?
TELES – Estou na Visa há dois anos e meio e os desafios foram mudando. O primeiro foi uma mudança comportamental. A Visa era uma empresa matricial, dividida por áreas e a integração era um grande desafio. Criamos mecanismos de incentivo, formas de remuneração diferentes, começamos a trabalhar em projetos multifuncionais e as metas das pessoas agora são cruzadas. Tivemos também o desafio de mostrar ao mercado que estamos abertos a novos negócios. Mudamos nossa forma de trabalhar e atraímos startups. Queremos ser protagonistas nessa onda de inovação.


DINHEIRO – Você tem como objetivo fazer a Visa reassumir a liderança no mercado?
TELES – O objetivo é fazer o mercado crescer. O líder do mercado, infelizmente, ainda é o dinheiro físico. O ano passado foi o primeiro em que os pagamentos eletrônicos superaram os em dinheiro. Mas como trazer novos volumes para o ecossistema de pagamentos? Obviamente quero ser o líder dessas iniciativas.
 

DINHEIRO – Qual sua expectativa para o País em 2019, em termos econômicos?
TELES – Estou bastante otimista. Há toda uma movimentação dos agentes econômicos, da sociedade, da população em prol de que as coisas deem certo. Há esse desejo e a gente já tem maturidade suficiente para conseguir influenciar a classe política para a aprovação das medidas que são necessárias. A equipe econômica é profissional e o plano de 100 dias foi uma mensagem clara das intenções do governo. Na medida em que as reformas forem acontecendo, e as aprovações forem vindo, a confiança do consumidor e do investidor vai aumentar.


DINHEIRO – E quais são suas principais apostas na empresa?
TELES – Uma delas é investir na aceitação de cartões no transporte público. Este vai ser o grande propulsor para adesão do cartão sem contato no país. Outra iniciativa é chamada “Cidades do Futuro”, que pensamos em implantar em Campina Grande, Belém e Maringá para depois expandir para outras 197 municípios. O objetivo é aumentar a aceitação de pagamentos eletrônicos, um projeto que deve ajudar a incrementar a economia local. Também apostamos na transferência de dinheiro de pessoas para pessoas, via cartão de crédito ou débito.


DINHEIRO – O que é e qual a importância do projeto “Cidades do Futuro”?
TELES – Quando começaram a explodir agências de bancos e caixas eletrônicos, percebemos que algumas cidades pequenas e de médio porte acabavam ficando sem qualquer caixa eletrônico. As pessoas eram obrigadas a viajar para sacar dinheiro e acabavam gastando o dinheiro nestes outros locais. Isso fez com que a economia destas pequenas cidades fosse definhando. Conversamos com as prefeituras, comerciantes locais, bancos adquirentes, processadores e identificamos uma série de demandas e, a partir disso, implementamos o projeto “Cidades do Futuro”. Elas vão se beneficiar e vão voltar a crescer.


DINHEIRO – Por que você acredita que o uso da tecnologia sem contato no transporte público pode estimular essa forma de pagamento?
TELES – O grande ponto é fazer esse tipo de pagamento deixe de ser apenas uma tecnologia interessante e faça parte da vida das pessoas. No Japão e em Londres, o transporte público foi a porta de entrada para o pagamento rápido. A pessoa pode usar o próprio cartão na catraca, algo totalmente fluido, seja no crédito ou débito. Trouxemos especialistas de Londres e aperfeiçoamos o sistema deles. Vamos implementar isso ainda neste trimestre, mas só posso dizer que será em uma cidade do Sudeste. Em todos os países onde vimos a penetração do cartão sem contato, percebemos que ele captura um volume grande de transações que antes eram feitas em dinheiro.

DINHEIRO – Essa tecnologia pode ser utilizada também para pagamentos em pedágios?

TELES – Sim. Hoje o motorista usa a tag, que permite passar mais rápido, ou paga em dinheiro. Ainda não existe essa solução do meio do caminho, em que o motorista aproxima o cartão e vai embora. Para isso é preciso negociar com as concessionárias de rodovias. Por enquanto, estamos focados no transporte público.
 

DINHEIRO – Como funciona a pulseira Nada, que está em fase de implementação em Fernando de Noronha?
TELES – A pulseira faz parte do programa Cidades do Futuro para incentivar o uso dos meios eletrônicos de pagamento em locais onde ainda predomina o uso do dinheiro em papel. Fernando de Noronha tem problemas de infraestrutura como a falta de internet, que causa dificuldades para o uso de pagamentos eletrônicos. Tanto os turistas, quanto os habitantes acabam dependendo muito do dinheiro em espécie e dos caixas automáticos, o que pode ser um tanto quanto inconveniente e inseguro se você está tirando férias ou se está empreendendo. A pulseira realiza os pagamentos por aproximação em terminais espalhados por toda cidade. Com apoio de nossos parceiros, criamos um sistema que funciona em toda a ilha sem depender da conexão ou de sinal 3G. Estamos caminhando para criar a primeira ilha sem dinheiro.

 

DINHEIRO – Qual é o maior benefício de trocar o papel moeda pelo cartão?
TELES – Estima-se que o aumento no uso de meios eletrônicos de pagamento possa gerar um benefício de até US$ 470 bilhões por ano nas 100 cidades estudadas por nós, o equivalente a cerca de 3% do PIB médio de cada uma delas. Se considerarmos São Paulo e Brasília, esse benefício chegaria a US$ 13 bilhões com as duas juntas. As empresas nas seis cidades analisadas perdem, em média, o equivalente a 4% de suas receitas devido a roubos, dinheiro falso e falta de fundos na caixa registradora. Esses valores podem ser significativamente maias elevados em cidades de mercados emergentes, como São Paulo, chegando a 9%.
 

DINHEIRO – E como isso pode afetar o bolso das pessoas?
TELES – Se eu disser que o uso cartão vai aumentar o PIB da cidade, a pessoa não vai entender como isso pode melhorar a vida dela. Não adianta falar em fatores macroeconômicos. Só vamos conseguir sensibilizá-las quando mostrarmos o impacto que a medida tem na vida delas. Estimamos que o aumento no uso de meios eletrônicos de pagamento poderia gerar um benefício líquido em Maringá, Belém e Campina Grande de até R$ 4 bilhões por ano, quando consideradas em conjunto. Essas iniciativas, como a do transporte público, são para mostrar os benefícios dos pagamentos eletrônicos.


DINHEIRO – Isso se refletirá de que forma na vida do consumidor?
TELES – Além da agilidade no pagamento, podemos criar sistemas de benefícios. O que acontece se uma pessoa for 10 vezes no mesmo estabelecimento e pagar com dinheiro? Nada. Ninguém sabe quem é a pessoa se ela paga com dinheiro. Mas se o comerciante tem as transações registradas, ele sabe quando é décima vez que o cliente está ali e pode devolver parte do dinheiro no próprio cartão, por exemplo. Fizemos isso na Black Friday. Todo mundo que comprou com cartão Visa acima de R$ 800, ganhou R$ 80 de volta.


DINHEIRO – Os custos do cartão, como juros e taxas pagas por comerciantes, atrapalham a expansão do uso dos cartões?
TELES – Uma operação de pagamento tem sempre um custo. Os pagamentos digitais são menos onerosos do que os pagamentos em dinheiro. Constatamos que aceitar dinheiro em espécie custa às empresas 7centavos por dólar recebido, em comparação a 5 centavos por dólar coletado de fontes digitais. O estudo ainda descobriu que, nas 100 cidades pesquisadas, os consumidores que não têm conta bancária gastam de US$ 7 a US$15 ao mês, em média, com atividades para retirar fundos em dinheiro, como o saque de cheques. Ao reduzir o uso de dinheiro, estima-se que cada consumidor sem conta bancária poderia economizar, em média, de US$ 84 a US$ 180 ao ano. Os pagamentos digitais – em especial os métodos móveis – podem ajudar a promover inclusão financeira.


DINHEIRO – Como será a transferência de recursos de uma pessoa para outra sem que a transação tenha que passar por um banco?
TELES – Hoje, quando se quer fazer uma transferência de dinheiro, encontramos a limitação do horário bancário. Essa nossa solução funciona 24 horas por dia. E, em paralelo, também vamos lançar o pagamento de empresas para pessoas via cartão. As companhias aéreas pagam as diárias aos seus funcionários que viajam ao exterior em um envelope com a moeda daquela região. Se a gente desenvolve essa solução para a companhia aérea, os funcionários podem receber em cartões. São transferências semelhantes às que já existem, mas sem a necessidade de transferir dinheiro de uma carteira para outra. Nosso grande combate é contra o dinheiro em espécie. Quando desenvolvo uma solução, penso na nossa indústria: quem tiver cartão de outra bandeira também terá possibilidade de fazer essas transferências. A gente acredita que é para um bem maior.

 

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