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07/01/2019 - Guerra das ´maquininhas´ de cartão continua acirrada em 2019

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VALOR 

Por: Flávia Furlan 

A guerra das “maquininhas” vai continuar no Brasil em 2019. Enquanto as empresas veteranas no setor, controladas por grandes bancos, ainda têm margem para queimar diante da concorrência mais acirrada, as novatas estão capitalizadas para enfrentar essas gigantes, após a abertura de capital no exterior.

As credenciadoras oferecem serviços para os varejistas captarem os pagamentos dos clientes, que devem somar R$ 2 trilhões em operações de crédito, débito e pré-pagos em 2019, ante R$ 1,6 trilhão previsto para o ano passado, segundo a Mastercard.

As maiores empresas do setor — Cielo, do Bradesco e do Banco do Brasil; Rede, do Itaú; e Getnet, do Santander — ainda concentram o mercado, mas estão perdendo espaço para as independentes. Em 2016, tinham 89% do volume de pagamentos, fatia que deve ter caído a 80% em 2018, segundo estimativas do banco Credit Suisse. Elas brigam com as novatas PagSeguro e Stone, empresas que saíram de 3% do mercado há dois anos para 10%.

A competição não é uma surpresa. Esse cenário foi construído com base em mudanças realizadas pelo Banco Central na regulamentação do setor nos últimos anos, bem como com o avanço da tecnologia. No total, já são mais de 20 credenciadoras e 200 subcredenciadoras no país, segundo dados do Banco Central.

As marcas da disputa aparecem nos números apresentados pelas empresas do setor com capital aberto em bolsa. No combinado, apesar do aumento do volume transacionado e da receita, as margens e os lucros estão em queda.

Somente no terceiro trimestre de 2018, Cielo, PagSeguro e Stone transacionaram, juntas, R$ 193 bilhões, um avanço de 8,6% em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior. As receitas subiram 17,7%, para R$ 4,5 bilhões, no período analisado.

Já o lucro líquido combinado caiu 1,3% entre o terceiro trimestre de 2017 e de 2018, para R$ 1,134 bilhão. Ele é resultado da queda de 20% do lucro da Cielo, que está sacrificando os resultados para manter a posição de liderança.

Nas independentes, por sua vez, o lucro líquido tem crescimento significativo, embora a base seja menor. A PagSeguro lucrou R$ 231,6 milhões no terceiro trimestre, uma alta de 57% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Já a Stone reverteu o prejuízo de R$ 14,8 milhões para lucro de R$ 90,4 milhões na mesma base de comparação.

Para garantir seu espaço no mercado, a Cielo reduziu a margem, que caiu de 34,7% no terceiro trimestre do ano passado para 27,4% no mesmo período deste ano, ainda assim acima dos 20,4% da PagSeguro e dos 21,6% da Stone.

Nos Estados Unidos, mercado mais maduro que o brasileiro, as empresas do mesmo setor têm uma margem líquida entre 15% e 20%. Segundo os analistas que cobrem o setor, esse patamar pode ser alcançado nos próximos cinco anos. “O limite dessa guerra de preços no Brasil vai ser a margem das empresas”, diz Carlos Macedo, analista do setor financeiro do Goldman Sachs.

Um dos principais indicadores dessa guerra, as taxas de desconto cobradas a cada transação feita pelo varejista, estão em queda. No crédito, elas estão em 2,63%, em média, ante 2,95% em 2009. Os analistas acreditam que as veteranas terão de baixar ainda mais as taxas, o que ainda assim pode não ser suficiente para evitar perdas de participação de mercado.

Na estratégia de Cielo, Rede e Getnet, escala é imperativo, e a qualquer custo, tendo em vista o objetivo de seus acionistas, no caso os grandes bancos, com o negócio. “A captura de transação com cartão de crédito é parte de algo mais amplo. No final do dia, queremos a gestão do fluxo de caixa da empresa, para rentabilizar o relacionamento”, diz Vinicius Favarão, diretor da Bradesco Cartões. De acordo com ele, a competição desse mercado só tende a se acentuar nos próximos anos, uma realidade que veio para ficar, e que deve continuar machucando as margens.

Nesse ambiente competitivo, o banco Safra reduziu a estimativa de ganho da Cielo em 2019, de R$ 3,412 bilhões para R$ 2,453 bilhões, com recuperação só em 2020, devido à redução dos preços e ao aumento do gasto com marketing, o que vai ferir a lucratividade.

Outra estratégia das veteranas tem sido vender maquininhas — no passado, elas só alugavam. O modelo novo, introduzido pela “Moderninha”, da novata PagSeguro, tem sucesso entre microempreendedores. A primeira veterana a enveredar por esse caminho foi a Getnet, que lançou a “Vermelhinha” em 2017. No início única competidora de Cielo e Rede, a empresa ganhou três pontos percentuais de fatia de mercado desde 2016, chegando a 12%, e reportou um lucro líquido de R$ 113,5 milhões no terceiro trimestre de 2018, queda de 2% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A venda de maquininhas está entre as prioridades da Cielo, por meio da marca Stelo, empresa que pertencia ao mesmo grupo e que passou ao seu controle em janeiro de 2018. Paulo Caffarelli, que deixou a presidência do Banco do Brasil para assumir o cargo de CEO da Cielo no início de novembro, será mais agressivo em medidas que tragam mais competitividade à empresa, segundo apurou o Valor. Por isso, deve reforçar a venda de maquininhas, que só na rede do Bradesco ficou perto de 400 mil unidades em 2018.

Entre as novatas, a estratégia tem sido manter a agressividade de preços, mas agregando mais serviços aos clientes. Ao mesmo tempo, já estudam alternativas às maquininhas, como o uso do celular para receber pagamentos.

A PagSeguro lançou neste ano o pagamento com QR code, transferências instantâneas e empréstimos pelas maquininhas. A Stone, por sua vez, oferece softwares para gestão do negócio dos varejistas, com serviços como conciliação dos pagamentos com o caixa e a repartição dos valores recebidos, a função chamada de “split”.

No limite, o modelo que as novatas têm seguido é o da americana Square, que oferece aos varejistas uma solução de pagamento, mas também de gestão de caixa, ajudando com pedidos, estoque e funcionários.

E os investidores estrangeiros estão de olho justamente na capacidade das novatas brasileiras em oferecer cada vez mais serviços aos varejistas e se tornarem a “Square do Brasil”, por isso têm apostado nessas empresas.

No entanto, a dúvida é se o mercado de credenciamento não está vivendo uma bolha. Após a divulgação de resultados do terceiro trimestre, as projeções fornecidas pela PagSeguro para o ano em teleconferência frustrou as expectativas dos analistas, apesar de estarem em linha com o que havia sido divulgado no IPO (oferta pública inicial de ações).

No dia seguinte, as ações da empresa caíram fortemente, uma vez que o comunicado foi feito no fim da teleconferência, sem chance para perguntas dos analistas. “Não acho que exista um otimismo exagerado nem bolha com essas empresas. O investidor olha a tecnologia, o potencial de mercado, e aposta de maneira racional nelas”, diz Macedo, do Goldman Sachs.

De maneira geral, os analistas não sabem até quando a guerra das maquininhas irá ocorrer, mas acreditam que ela ainda vai sacrificar os resultados das veteranas, enquanto trará volatilidade para as novatas.

 

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