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26/09/2016 - O contra-ataque digital dos grandes bancos

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Por Cláudio Gradilone | IstoÉ Dinheiro

Para os empreendedores do Vale do Silício, na Califórnia, receber investidores não é uma novidade. Por isso, a discreta visita de dois senhores brasileiros em novembro do ano passado não causou grande burburinho. Ambos aproveitaram a viagem para visitar algumas das principais fintechs locais, nomes como Credit Karma e Wealth Front, que concedem empréstimos e indicam investimentos a dezenas de milhões de clientes nos Estados Unidos. Dez meses depois, porém, o resultado do périplo de Roberto Setubal e Marco Bonomi, presidente executivo e vice-presidente de varejo do Itaú Unibanco, já era visível.

No início de setembro, o banco tornou possível abrir uma conta sem ter de comparecer a nenhuma agência. Basta fazer um selfie, fotografar os documentos e enviar para o computador do Itaú, tudo pelo celular. A parte burocrática agora dispensa a movimentação de documentos físicos. “Nossa meta é que, até 2017, os clientes poderão fazer absolutamente todas as transações com o banco pelo celular”, diz Setubal, que recebeu na quinta-feira 22 o prêmio de Empresa do Ano do anuário AS MELHORES DA DINHEIRO (leia mais aqui). “Investimos cerca de R$ 3,3 bilhões em um novo centro de processamento de dados. A nova unidade vai permitir que avancemos muito na oferta de soluções tecnológicas para os clientes.”

A revolução digital, que permitiu o lançamento do Banco Original, do Grupo J&F, também é uma prioridade no Bradesco e no Santander. O maior rival do Itaú deve anunciar, ainda neste ano, o lançamento do Bradesco Digital, provavelmente sob a marca Next. Os aplicativos que vão apoiar essas mudanças estão sendo desenvolvidos em um misto de startup e centro de pesquisas sobre atividade bancária, alojada em um prédio na Cidade de deus, em Osasco (SP). O comando é de Maurício Machado de Minas, diretor de tecnologia do banco.

O executivo Luca Cavalcanti, diretor de Canais Digitais do Bradesco, falou à DINHEIRO sobre a estratégia da instituição. “Estamos preparando o banco para a era digital, pois a demanda do cliente é essa”, diz ele. “Não pensamos apenas no aumento da eficiência e no corte de custos, mas também em uma maneira de facilitar a inclusão bancária, e a maior parte disso estará ligada, de uma forma ou de outra, a aplicativos para dispositivos móveis.” No Brasil, bancos e tecnologia sempre estiveram próximos. Não por acaso, o segundo computador adquirido por uma empresa brasileira foi um IBM 1401 comprado em 1962, pelo Bradesco.

Transações bancárias pela internet e caixas automáticos que funcionam sem intervenção humana há muito tempo fazem parte da paisagem diária. As iniciativas móveis, porém, vinham caminhando de maneira tímida. Só que isso vai mudar, pois há agora uma variável nova nessa equação: a nova geração de clientes. Os novos usuários de produtos financeiros serão os millennials, também conhecidos como Geração Y. Nascidos entre o início dos anos 1980 e o fim da década de 1990, são conhecidos por sua enorme diversidade, mas têm alguns pontos comuns. São impacientes, querem tudo, querem agora, e se frustram facilmente.

Se uma solução não agrada, partem para a próxima. Na essência, não são muito diferentes dos seus pais e avós. Mas, na prática, têm algo que lhes permite agir dessa maneira: tecnologia à disposição e facilidade para usá-la. “Isso muda as relações de consumo em toda a economia, mas com mais profundidade no sistema financeiro”, diz Guilhermo Bressane, responsável pela área de finanças do Google do Brasil. Dito assim, o cargo de Bressane pode levar a uma percepção enganosa. Ele não cuida das contas a pagar e a receber do portal, mas sim atende as empresas financeiras que são, de uma forma ou de outra, clientes do Google.

Entre elas, algumas dezenas de fintechs brasileiras e milhares de outras pelo mundo afora. Por isso, Bressane e sua equipe têm acesso a uma quantidade inimaginável de informações em tempo real sobre o que está acontecendo no mundo do dinheiro, o que lhes permite não apenas saber o que está acontecendo em tempo real, mas prever, com um razoável grau de precisão, quais serão os novos movimentos da indústria. O que ele pensa do momento atual? “Estamos prestes a testemunhar uma das mudanças mais profundas desse setor em décadas”, diz Bressane (leia entrevista ao final da reportagem).

Estatisticamente, o avô de um cliente da Geração Y considerava a ida ao banco uma hora agradável do dia. O pai de um millennial considera a ida ao banco uma obrigação. O cliente da Geração Y vive em contato com o banco, mas não sabe onde fica sua agência, nem faz questão de saber. Dados do Google, a que DINHEIRO teve acesso com exclusividade, mostram que, em média, um millennial interage com seu celular 150 vezes por dia, poucos segundos por vez, para consultar uma mensagem de texto ou postar uma foto em uma rede social. “As interações do cliente com o banco não serão muito diferentes”, diz Bressane. Assim, só os bancos que entenderem a nova forma de o cliente interagir com eles vão permanecer competitivos.

Essa é a aposta de Thiago Alvarez e Benjamin Gleason, fundadores da fintech GuiaBolso. Uma das poucas, ao lado da operadora de cartões de crédito NuBank, a contar com aportes de capital de investidores, a GuiaBolso inspira-se na Credit Karma. Nos Estados Unidos, a fintech pesquisa a classificação de risco do cidadão americano, confere quais bancos estão dispostos a emprestar-lhe dinheiro e faz a ponte com o potencial cliente, sem custo. O lucro vem da comissão paga pelo banco que concede o empréstimo. Com 60 milhões de clientes, a Credit Karma vale US$ 3,5 bilhões.

Por aqui, o GuiaBolso proporciona aos cerca de três milhões de clientes uma visão em tempo real de sua situação financeira e não intermedia empréstimos. Ainda. “O Brasil tem cerca de 60 milhões de contas bancárias, e temos muito espaço para crescer nesse mercado”, diz Alvarez. Esses concorrentes ainda não são capazes de deslocar largas fatias do mercado atual dos bancos, mas podem ser ameaças sérias ao mercado futuro. Por isso, os gigantes do varejo vêm estudando assuntos que, até há pouco tempo, eram impensáveis. “Passamos boa parte do tempo pesquisando como o cliente usa o polegar no celular”, diz Cavalcanti, do Bradesco. “A ideia é que o desenho do aplicativo seja o mais interativo possível.”

A estratégia do Santander Brasil é semelhante. Em uma incubadora de novos negócios na sede do banco, na Zona Sul de São Paulo, Alessandro Andrade, superintendente executivo de canais digitais do banco, comanda a ofensiva dos espanhóis no front digital. Os primeiros ataques vieram pelos flancos, mais especificamente o mercado de financiamentos automotivos e o processamento de transações de cartão de crédito. Isso ocorre por meio de duas subsidiárias integrais do banco, que nasceram como startups e foram adquiridas pelo Santander: o portal de classificados automobilísticos WebMotors, adquirido no início da década, e a empresa de cadastramento de usuários de cartões de crédito GetNet, comprada em 2014.

No início de setembro, o banco, por meio da GetNet, lançou um terminal de processamento de transações com cartões ligado ao celular, e as novas iniciativas vão aproveitar a base de mais de dez milhões de clientes da WebMotors. O Banco do Brasil também está surfando nessa onda virtual. Na quinta-feira 22, o banco lançou um aplicativo para digitalizar todas as transações com celular, o OuroCard-e. “Agora, tão importante quanto entregarmos um cartão de plástico para o cliente, será colocar o aplicativo em seu celular”, diz Raul Moreira, vice-presidente de negócios de varejo do BB. E o porquê de tudo isso é resumido por Setubal. “A tecnologia vai aumentar a concorrência e reduzir a margem de lucro dos bancos”, diz ele. “Precisamos estar preparados para o futuro.”

“A internet vai permitir transações financeiras on-line em larga escala”

Guilhermo Bressane, responsável pela área de finanças do Google do Brasil, falou com a DINHEIRO

Estamos em um momento de ruptura na relação entre bancos e tecnologia?

Sim. Mais da metade da população brasileira tem acesso à internet e quando essa proporção passa de 50%, isso cria um ambiente propício para vários modelos de negócio. Isso ocorre graças ao smartphone. Ele se torna o primeiro portal de acesso do consumidor, que abre mão de uma televisão mais sofisticada ou de um tablet.

Como isso beneficia as fintechs e afeta os bancos?

Uma vez que o acesso à internet está democratizado, começamos a ter a capilaridade necessária para a atuação das fintechs. A internet vai permitir transações financeiras on-line em larga escala. Os bancos dependem de agências físicas, mas isso começa a mudar.

As fintechs são complementares ou concorrentes dos bancos?

Elas até concorrem em algumas esferas, mas são muito mais complementares. Uma fintech que se propõe a ser grande assusta quem já está estabelecido no primeiro momento. Aos poucos, porém, os bancos, os adquirentes e as bandeiras de cartão acabam percebendo que isso é complementar. O grande desafio deles é encontrar maneiras de trabalhar com essas fintechs que seja produtivo para os dois lados. E isso já está ocorrendo.

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