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07/07/2016 - Conta digital abre espaço para maior concorrência

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Por Felipe Marques | De São Paulo

Não passaram sequer três meses desde que o Banco Central (BC) regulamentou a abertura de contas correntes por via digital e já há até disputa entre bancos (Sofisa e Original) pelo título de primeira instituição financeira 100% online do país. Pioneirismo a parte, o acelerado processo de digitalização do sistema financeiro brasileiro abriu uma oportunidade para que instituições de médio porte voltem a se aventurar pelo varejo bancário brasileiro, segmento do qual bateram em retirada nos últimos anos, graças aos elevados custos operacionais.

Neste curto intervalo de tempo, o Banco Original, do grupo J&F, o Sofisa, da família Burmaian, e o Banco Intermedium, da família Menin (a mesma da construtora MRV), saíram à caça de clientes bancários internet afora. Outras instituições devem se aventurar em breve por essa seara, afirmam alguns dos principais provedores de tecnologia para o segmento bancário, como a C&M Software e a Provider IT.

A aposta das instituições de médio porte é que um modelo de negócios exclusivamente digital faça a conta fechar na hora de competir no varejo bancário. O excesso de custos, em especial os relacionados a postos de atendimento, foi um dos fatores que fez com que bancos médios e financeiras reduzissem a presença no varejo. O Original, por exemplo, concentra esforços em fisgar os rentáveis clientes de alta renda, com promessa de atendimento mais ágil e alta rentabilidade em investimentos.

O Banco Intermedium, de Minas Gerais, aposta em uma conta digital sem tarifas para conquistar clientes insatisfeitos de outras instituições financeiras. "Eu não cobro para que o cliente seja meu correntista. A minha margem vem dos produtos que ele usa comigo, como seguros, câmbio e investimentos", afirma o presidente do banco, João Vitor Menin. Ele cita a ausência dos custos relacionados às agências bancárias, como segurança, manutenção de imóvel e contratação de pessoal, como outro fator que possibilita que o banco não cobre as tarifas dos correntistas. Segundo ele, o banco tem apostado nas mídias sociais para encontrar seus potenciais clientes. "Nossa margem acaba sendo menor, mas acreditamos que a competição pode e vai achatar as margens que os grandes bancos têm hoje com esses produtos", afirma.

Não deixa de ser surpreendente que a avaliação de Menin seja semelhante à feita por um dos mais importantes executivos do setor financeiro: Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco. Na abertura de um evento sobre tecnologia bancária em São Paulo há algumas semanas, ele afirmou que os grandes bancos verão suas margens pressionadas e serão levados a reduzir preços graças à competição das "fintechs". Tais empresas, as "start-ups" do sistema financeiro, têm se multiplicado rapidamente, invadindo searas como cartão de crédito, empréstimo pessoa física, seguros e até conta corrente. "É um desafio. Nós, bancos, vamos ter que correr", afirmou Setubal.

A consultoria alemã Roland Berger diz que o avanço de iniciativas digitais tende a transformar a forma como competem as instituições financeiras no país. "Ser um grande banco, com grande rede de agências, não é mais o fundamental. Não há mais a barreira de entrada que é erguer agências", diz Sebastian Maus, diretor de setor financeiro da consultoria. Para ele, os bancos médios têm oportunidade de largar na frente dos grandes em modelos digitais de negócios, pois podem implementar mudanças mais rapidamente.

"Quase todos os bancos médios com quem temos conversado têm investido em digitalização, tanto dos seus produtos como de suas estruturas operacionais", diz Antônio Bernardo, presidente da Roland Berger Brasil.

Na avaliação dele, porém, os grandes bancos tendem a reagir ao avanço digital dos concorrentes via parceria com alguns dos novatos ou mesmo com a abertura de um novo "banco digital" apartado da estrutura que já existe, como fez o BBVA, na Espanha. "Na nossa visão, empresas como NuBank, Lendico ou mesmo o Banco Original vão sim criar concorrência para os grandes bancos, mas essa concorrência vai se concentrar em nichos." Bernardo observa que, por ora, os grandes bancos têm concentrado esforços digitais em clientes mais afluentes.

Para Almir Carrion, diretor comercial da Software, que fornece sistemas tecnológicos a instituições financeiras, além de abrir espaço para os médios, a digitalização traz a possibilidade de captura de um novo perfil de cliente. É um público que não é bancarizado, uma vez que seu comportamento não é rentável no modelo tradicional, mas que pode ser viável num ambiente digital. "Hoje, fora dos cinco maiores bancos, pouco se opera no varejo. O que está se abrindo é um novo mercado para quem não tem capilaridade.

Para Carrion, há um paralelo entre o que deve acontecer com os bancos e o processo de digitalização pelo qual passaram as corretoras - e que ajudou a dar força a nomes como a XP Investimentos e a Guide. Desde 2010, com vistas a aumentar a presença de pessoas físicas na bolsa, o setor começou a se organizar para criar formas de cadastro digital de clientes. Em 2013, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) normatizou o tema. "De cada dez pessoas que as corretoras abordavam, dois ou três viravam clientes. Com a digitalização, esse número chega a nove conversões", diz, o que reduziu custos. Hoje, as plataformas digitais das corretoras são uma forma importante para distribuição de produtos de renda fixa, em especial letras de crédito de instituições de menor porte.

A semente da operação digital do Intermedium começou na plataforma digital que o banco montou para distribuir principalmente letras de crédito imobiliário (LCI), conta Menin. A do Sofisa, que se diz o primeiro banco 100% online do país, começou de forma similar, de acordo com texto do site da instituição. Procurado, o Sofisa não concedeu entrevista.

Renato Ximenes, sócio do escritório de advocacia Mattos Filho, acredita que, após regulamentar a abertura de contas digitais por pessoas físicas, o BC deve se pronunciar sobre as contas de empresas. "A conta digital pessoa jurídica é o próximo desafio", diz.

Outra empresa de tecnologia para a indústria financeira, a Provider IT, que ajudou na criação do Original, reforça a necessidade de adaptação dos sistemas dos bancos para o mundo digital, não só a interface com os clientes. "Se o sistema por trás não estiver preparado, não adianta querer montar uma conta digital", diz Reginaldo Santos, sócio-diretor da empresa.

 

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