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08/03/2016 - Banco quer ampliar uso de pré-pagos

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Por Aline Oyamada e Felipe Marques | De São Paulo | Valor Econômico

Dono de uma empresa de limpeza terceirizada, Marco Eduardo Ferreira pôs no bolso de seus mil funcionários um cartão pré-pago para o recebimento dos salários. Foi a saída para acabar com a mistura de pagamentos em dinheiro para recém-admitidos e as complexidades de se gerenciar uma folha com empregados espalhados pelo interior paulista. "Tinha todo tipo de problema. O cartão de crédito não chegava e a gente pagava em dinheiro e corria risco de ser assaltado. O funcionário perdia a senha, o cartão era bloqueado e tudo tinha que ser resolvido na agência. No pré-pago, tudo é digital", conta. Mesmo pagando mais caro pelo serviço, ele vê vantagem, em especial nas bonificações por pontos de celular.

A busca dos grandes bancos por formas de incrementar receitas que não dependam do crédito tem levado a um aumento no apetite pela emissão de cartões pré-pagos. Entre as estratégias para emplacar o produto, que ainda está longe de movimentar as bilionárias cifras dos cartões de crédito, está seu uso na folha de pagamento de empresas com alta rotatividade de funcionários, em que o pagamento antes era feito em dinheiro. Os bancos também veem espaço para popularizar o pré-pago entre os clientes de baixa renda, em especial com a crescente inadimplência nos cartões tradicionais.

Atualmente, o grande mercado de pré-pagos está no vale-refeição e alimentação. Os pré-pagos de gastos no exterior perderam boa parte do apelo depois do fim da vantagem tributária que tinham sobre os cartões de crédito em viagens internacionais.

Foi de olho nas possibilidades desse mercado que o Santander  desembolsou, em outubro de 2014, R$ 31 milhões por metade da Super, empresa de cartões pré-pagos. De lá para cá, a base de clientes da empresa cresceu 77%, alcançando 360 mil contas, e o banco espanhol anunciou a intenção de comprar o restante do negócio. O objetivo, segundo Ezequiel Archiprete, diretor de produtos do varejo do Santander, é atingir 500 mil clientes pelos canais atuais de distribuição, mas ele afirma haver potencial para chegar a 1 milhão. "Em 2016 seremos muito mais agressivos, o potencial está na mesa", diz Archiprete.

O diretor do Santander diz que o foco da Super está em clientes recorrentes, como universitários e o público de alta renda que usa o pré-pago para pagamentos de funcionários e mesadas. Há também em seu portfólio contas de folha de pagamento de empresas de diversos portes, principalmente dos setores de construção civil, call centers e varejistas. Outro setor importante é o do agronegócio, que emprega um exército de trabalhadores temporários na época de colheita de safra.

O Bradesco, que distribui os cartões pré-pagos de sua controlada, a Alelo, vê na pessoa jurídica espaço para popularizar o cartão pré-pago, considerando que cerca de metade da população economicamente ativa ainda recebe seus vencimentos em dinheiro. "É um produto que para ser rentável, precisa de uma tarifa. Na pessoa jurídica, conseguimos criar uma estrutura mais adequada de cobrança do que na pessoa física", afirma Rita Maria Castro Barreiro Fernandes, superintendente da Bradesco Cartões. "Pelo menos no começo, a pessoa jurídica vai precisar carregar a pessoa física nesse produto".

Na experiência do Bradesco, semelhante ao que tem visto o Santander, o volume de saques no pré-pago ainda é alto entre os funcionários que recebem por meio desse cartão, mas há sinais de mudança gradual de comportamento.

No Itaú Unibanco, o foco dos pré-pagos é a pessoa física. Hoje, o banco concentra a atuação no público de alta renda, que usa o cartão para controlar despesas de funcionários domésticos ou a mesada dos filhos. Contudo, estuda ampliar esse escopo e usar o produto de porta de entrada para clientes nos próximos anos.

Marcos Magalhães, diretor de cartões do Itaú, afirma que estuda a necessidade de se investir mais no pré-pago, dada a possível oportunidade de crescimento criada pela crise econômica. "O cartão de crédito ocupou um espaço muito importante na ascensão da classe C e nunca vimos necessidade de ter produtos pré-pagos para atender à inclusão social. Pode ser que no cenário econômico mais adverso surja um nicho onde o pré-pago passa a ter um papel importante".

Essa é uma segmentação, segundo o diretor do Itaú, que pode se abrir nos próximos dois ou três anos. "Em fase de laboratório, estamos estudando como está exatamente o tratamento desse público mais fragilizado de baixa renda para entender se daqui para frente existiria uma necessidade relevante de [investir em] pré-pago para inclusão financeira", afirma.

Em muitas economias, o pré-pago cumpre o papel de instrumento de inclusão financeira, sendo, muitas vezes, o primeiro meio eletrônico de pagamento a que o cliente tem acesso. No Brasil, contudo, o incremento da bancarização nos últimos anos privilegiou o avanço dos cartões de débito e de crédito, deixando o pré-pago restrito a nichos. O grande segmento de utilização é o assistencial, seja via governo, por meio de programas como o Bolsa Família, ou via empresas, como os cartões de alimentação e refeição e vale-combustível.

Roger Ades, CEO da Agillitas, do Grupo Rendimento, afirma que a empresa busca novos públicos em que o pré-pago possa avançar, já que os cartões de viagens internacionais perderam demanda com o aumento do IOF e a alta do dólar. "Vamos atacar outros nichos", diz. A Agillitas tem cerca de 2,5 milhões de cartões pré-pagos emitidos.

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