Museu do Cartão de Crédito

22/01/2015 - A microaposta dos gigantes

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IstoÉ Dinheiro | Por: Luiz Gustavo Pacete | Edição 899

 

Na tarde de 27 de novembro de 2013, os executivos paulistas Rogério Biruel e Osvaldo Cervi, funcionários de carreira do Banco do Brasil (BB), estavam longe do País e muito distantes de seu ambiente usual. Na ocasião, a dupla se reuniu com pequenos empresários da periferia da Cidade do México. Apesar do pequeno porte financeiro dos interlocutores, Biruel e Cervi estavam ali de olho em um negócio bilionário, a criação de uma empresa de pequenos empréstimos. Um ano depois, em dezembro passado, o projeto, encabeçado pelo banco estatal, deu origem à Movera, que nasceu com um aporte de R$ 10 milhões do BB e de seu sócio, o Bradesco, focada no microcrédito.

O motivo da viagem foi conhecer as operações da Compartamos, maior empresa de microcrédito do México. Com operações também no Peru e na Guatemala, a Compartamos opera uma carteira de US$ 1,7 bilhão em empréstimos para um exército de 2,8 milhões de clientes. “Estudamos exemplos da Índia e de Bangladesh, mas o modelo que encontramos no México se ajusta melhor à realidade brasileira”, diz Biruel, diretor-geral da Movera. A companhia mexicana concede crédito e também presta consultoria financeira aos tomadores de empréstimos. “Buscamos conhecer o cliente e acompanhamos sua evolução desde o momento em que ele entra no sistema financeiro”, diz Alejandro Puente, diretor-executivo da Compartamos.

“Queremos que, mais tarde, ele consiga usar bem produtos de crédito mais sofisticados.” É um modelo que envolve custos maiores e é mais trabalhoso do que seu congênere bengali, mas foi justamente esse diferencial que atraiu os executivos do BB. Dedicada exclusivamente a pequenos empreendedores, a Movera, que nasceu com uma carteira de R$ 70 milhões emprestados para 60 mil clientes do BB, vai orientar e acompanhar os empresários interessados em obter linhas de financiamento. A meta é intermediar financiamentos para 1,5 milhão de clientes nos próximos três anos.

Os valores oscilam entre R$ 1,2 mil e R$ 15 mil, com juros entre 0,7% e 1% ao mês, taxa acima do 0,4% ao mês cobrado, em média, nos microfinanciamentos concedidos pelo banco estatal. “Não vamos atuar como organização social. Nosso objetivo é atender outros bancos e empresas do sistema financeiro”, diz Cervi, presidente da Movera e da Alelo, outra empresa na qual Bradesco e BB juntaram esforços. “Apesar de terem os mesmos sócios, as duas empresas são absolutamente distintas”, esclarece o executivo. A escolha de Cervi para a presidência da Movera, e o fato de seu escritório estar no mesmo prédio da Alelo, em Alphaville, não são coincidências.

Eles mostram a crescente aproximação entre Bradesco e BB, que fecharam as primeiras parcerias há duas décadas. Em 1995, as duas instituições fundaram, ao lado dos extintos Banco Nacional e Banco Real, a administradora de cartões de crédito Visanet, atual Cielo. Hoje, ambos permanecem no negócio por meio da holding Elopar, com participação da Caixa Econômica Federal. Em 2003, para participar do crescente mercado de benefícios, eles criaram a Companhia Brasileira de Soluções e Serviços (CBSS), renomeada Visa Vale e mais tarde rebatizada de Alelo. Em 2010, foi criada a bandeira de cartões 100% nacional Elo Serviços e em abril do ano passado surgiu a empresa de pagamentos eletrônicos Stelo.

O objetivo da Movera é fazer algo que os dois bancos até agora não haviam conseguido: tratar o microcrédito como um negócio estratégico. No radar da Movera estão empreendedores como mercearias, creches e lojas de roupas, que faturam de R$ 20 mil a R$ 120 mil por ano. Para chegar até eles, a Movera vai investir não só na tecnologia, mas também no relacionamento pessoal. Serão contratados 100 funcionários, a maioria agentes de crédito, que vão atuar em projetos-piloto em seis Estados. “Através desses agentes, a Movera vai orientar os clientes, acompanhar a aplicação dos recursos e controlar de perto a adimplência”, diz Adilson do Nascimento Anísio, diretor de micro e pequenas empresas do BB.

No total, a carteira consolidada de microcrédito do BB é de R$ 4 bilhões, uma fração do total de R$ 732,7 bilhões emprestados. A fatia do Bradesco é menor ainda, apenas R$ 750 milhões em uma carteira total de R$ 444,2 bilhões. O modelo da Movera vem sendo aplicado pelo Banco do Nordeste do Brasil (BNB), onde o microcrédito é gerido por uma entidade independente, o Instituto Nordeste Cidadania (Inec), que administra uma carteira de R$ 2,4 bilhões. “Nosso trabalho inclui seleção, recrutamento, treinamento e pagamento dos salários e encargos contratuais de todos os agentes de crédito e da equipe que dá suporte ao programa”, diz Helda Kelly, diretora do Inec.

Na terça-feira 13, o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) aprovou um financiamento adicional de R$ 100 milhões para o microcrédito do BNB. Não por acaso, o microcrédito é muito vinculado a bancos públicos e a organizações sociais. Por demorarem para ser concedidos e contarem com poucas garantias, esses empréstimos não são estratégicos para os bancos privados – com exceção agora do Bradesco. Eduardo Ferreira, superintendente de negócios inclusivos do Itaú Unibanco, diz que o produto é usado como uma ferramenta de relacionamento. “Muitos clientes do microcrédito crescem economicamente e passam a ter porte para serem atendidos na rede tradicional”, diz ele.

Tanto é que a carteira cresceu 35% até setembro de 2014 e atingiu R$ 350 milhões, mas ainda representava apenas 0,05% do total. O espanhol Santander também exibe números modestos. “Os microempreendedores têm uma representatividade tremenda no Brasil ”, diz Jerônimo Ramos, superintendente de Microcrédito do Santander. Mesmo assim, os R$ 287 milhões concedidos ainda significam apenas 0,12% do total. Segundo o Banco Central (BC), até junho de 2014, dado consolidado mais atualizado, essa carteira respondia por apenas 0,2% dos R$ 2,83 trilhões emprestados pelo sistema financeiro para pessoas e empresas. Mas o tratamento empresarial da Movera pode ser o pontapé para alterar esse quadro.

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