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19/09/2014 - "Temos de reconstruir a credibilidade econômica”

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João Pedro Paro Neto, presidente da MasterCard no Brasil ( foto: Claudio Gatti)

João Pedro Paro Neto, presidente da MasterCard no Brasil ( foto: Claudio Gatti)

Luís Artur Nogueira | Isto É Dinheiro | Edição nº 883

Em setembro do ano passado, o engenheiro mecânico João Pedro Paro Neto, que cuidava da área comercial da MasterCard, assumiu a presidência da subsidiária da empresa americana no Brasil. Natural de Colina, no interior de São Paulo, Paro Neto, 55 anos, teve de conduzir os negócios em meio à desaceleração econômica do País, que gera o segundo maior resultado da MasterCard, com faturamento global de US$ 340 bilhões. Presente no Brasil desde os anos 1960, a MasterCard comemora uma expansão anual de 15% no mercado de meios eletrônicos de pagamentos. “É óbvio que o desempenho melhor ou pior da economia afeta o nosso negócio, mas não é o principal”, diz o executivo, que concedeu entrevista à DINHEIRO em seu escritório, em São Paulo, na terça 16.

DINHEIRO – O mercado de meios eletrônicos de pagamentos vai continuar crescendo 15% ao ano, mesmo com o Pibinho?
PARO NETO – Acreditamos que sim, por conta da substituição do dinheiro pelo cartão e do surgimento de novas tecnologias. O mobile é um exemplo disso. Todos os brasileiros têm um celular na mão. Esse negócio tem um espaço enorme para crescer. Além disso, muitas atividades ainda não estão com cartão, como a carta-frete, utilizada pelos caminhoneiros. Sabe quanto de dinheiro é isso aí? Mais ou menos R$ 80 bilhões em papel, que agora está passando para meios eletrônicos. Nós imaginamos que a participação dos cartões no consumo privado total no Brasil possa saltar de 30% para 40%, em pouco tempo. Em 1995, eram apenas 2%. Os países mais desenvolvidos em meios eletrônicos de pagamento já estão próximos de 90%, pois há um incentivo do governo para acabar com a circulação do dinheiro. O papel moeda custa para a sociedade mais ou menos 1,3% do PIB. O custo é enorme para imprimir, transportar e guardar, sem falar na segurança.

DINHEIRO – Qual é o peso do Brasil para o desempenho global da MasterCard?
PARO NETO – O Brasil é o segundo maior mercado do mundo, só atrás dos Estados Unidos e à frente de grandes como Inglaterra, Austrália e Canadá. A indústria de cartões foi muito bem desenvolvida no Brasil na época da inflação elevada, e os bancos brasileiros evoluíram muito nos meios eletrônicos. Isso deu credibilidade, gerou os chips no cartão, que tinha como barreira a senha. Foi necessária uma mudança cultural.

DINHEIRO – Em 2014, o Brasil está registrando uma das menores taxas de crescimento do mundo. A matriz, nos Estados Unidos, não está preocupada?
PARO NETO – Economias são cíclicas, os governos mudam. O importante é passar credibilidade. Porque no momento em que tiver credibilidade, meu patrão vai ligar e dizer “continua investindo no Brasil”. Mas se perder a credibilidade, isso afetará o negócio. É óbvio que o desempenho melhor ou pior da economia afeta o nosso negócio, mas não é o principal. Estamos olhando um horizonte mais à frente.

DINHEIRO – O que representou a ascensão de milhões de pessoas à classe C?
PARO NETO – Foi uma ótima coisa, que nos beneficiou. As pessoas começaram a usar mais cartões. Temos pesquisas mostrando que a nova classe média está preocupada com estudo e lazer, e isso tem tudo a ver com a nova demanda que haverá, por exemplo, no setor de turismo. Meu grande desafio não é aumentar o número de cartões, mas sim ampliar o total de lugares que aceitam o cartão e melhorar a ferramenta para que as pessoas não tenham medo de usá-la. O consumidor ascendente quer viver experiências. Ele teve momento de comprar televisão e geladeira. Hoje, o consumidor busca novidades, como estudar no Exterior. Precisamos estar preparados para atender a essa nova onda de consumo. A cabeça do consumidor está mudando, sua exigência é outra. Depois que passou do básico, ele já almeja outra coisa. E o meio eletrônico propicia isso.

DINHEIRO – Embora a Mastercard esteja satisfeita com o Brasil, a mídia internacional critica o desempenho da economia brasileira. Há um pessimismo exagerado por parte dos estrangeiros?
PARO NETO – A economia como um todo tem diferentes setores. As pessoas podem falar que a economia está ruim, é a primeira reação. Mas quando você passa a olhar para o País, vê o seu potencial, a capacidade de expansão e o tamanho do mercado interno, raramente escuta alguém indo embora do Brasil. A empresa estrangeira que chega ao Brasil não sai nunca mais, pois aqui tem um enorme mercado. É claro que o noticiário é reativo, mas não é por aí que a gente se apega. Temos de olhar para o horizonte. Se há capacidade para o meu negócio, temos de investir. Estamos aqui desde a década de 1960 e não vamos sair.

DINHEIRO – Dado o tamanho do mercado consumidor brasileiro, estar no País é obrigatório para uma empresa global?
PARO NETO – Sim. É um mercado extremamente competitivo, desafiador e que gera oportunidades de negócios. Há empresas extremamente capazes, tecnologia e consumidor que sabe o que quer. Quando encontramos o produto e o serviço corretos, nós desenvolvemos um volume magnífico em pouco tempo. O Brasil tem posição de destaque em muitos produtos de consumo, liderando rankings internacionais. São poucos os mercados no mundo que têm esse potencial. Afinal de contas, somos a sétima maior economia em tamanho de PIB. Investir no Brasil não é uma decisão difícil de se tomar.

DINHEIRO – Em meio a números negativos, o desemprego continua baixo. É o indicador mais importante da economia?
PARO NETO – Ele é importante, mas não sei se é o mais importante. O desemprego é muito relevante para o nosso negócio. Quando há estabilidade no nível de emprego, significa que os índices de inadimplência estão comportados e que o consumidor terá potencial de comprar. O Brasil vive um período de bônus demográfico e a nossa pirâmide etária está virando um retângulo. Vamos nos beneficiar disso também, porque até 2020 vamos ter uma quantidade maior de pessoas trabalhando, consumindo e tendo lazer.

DINHEIRO – Como o sr. define o atual momento pré-eleitoral?
PARO NETO – Essa é uma das belezas da nossa jovem democracia. Independentemente do crescimento que estamos obtendo, há uma enorme responsabilidade do governo A, B ou C, que vencer a eleição. O mais importante é criar os elementos de credibilidade para desenvolver o mercado. A ansiedade é natural, porque queremos saber quem vai ganhar.

DINHEIRO – Após a queda do avião do ex-governador Eduardo Campos, o jogo eleitoral ficou embaralhado por conta da entrada de Marina Silva na disputa. Alguém ligou para o sr. de Nova York perguntando sobre ela?
PARO NETO – Sim, falamos muito que no Brasil não dá para governar sozinho e que a Marina conta com elementos interessantes, nomes respeitados no mercado. Assim como Dilma e Aécio. O fato é que a Marina tem a mesma responsabilidade que todo mundo. Ela tem as experiências dela, participou do governo Lula, ganhou prêmio em vários lugares, tem o lado verde muito forte e reconhecido.

DINHEIRO – Como será 2015 no Brasil?
PARO NETO – Será um ano importante, por dois motivos: teremos um novo presidente, um novo governo e novas coisas para serem feitas. E o segundo é a volta da credibilidade. Temos de reconstruir a credibilidade econômica. Não acredito que o ano que vem vá ter um desenvolvimento econômico muito mais forte do que estamos vendo atualmente, principalmente pela necessidade dos ajustes. Acredito que será similar a 2014, para que depois o País comece a se beneficiar desses ajustes. Não dá para fazer milagre. Economia não é um negócio em que o milagre se materializa.

DINHEIRO – Quais são os principais negócios da MasterCard?
PARO NETO – A MasterCard é uma empresa de tecnologia no mundo de meios de pagamento, com o objetivo de torná-los cada vez mais simples, seguros e inteligentes. O consumidor, no final do dia, tem de se sentir confortável com o meio de pagamento, para que ele possa usá-lo cada vez mais e, consequentemente, a nossa indústria consiga crescer ainda mais. Se você olhar hoje no Brasil, dificilmente vai a algum lugar que não aceite cartão. Mas, por exemplo, se você for pagar um táxi, alguns aceitam, outros não. A maquininha, de repente, é muito cara para o taxista, mas com alternativas para o smartphone, agora existentes, o serviço fica mais barato para eles. Esse tipo de coisa chama-se inovação. Nossa indústria movimenta R$ 1 trilhão por ano no Brasil. Há outro trilhão que é o saque das ATMs. Como as pessoas sacam? Com cartão. Se em vez de sacar, elas usarem o cartão, o mercado cresce.

DINHEIRO – Nesse mundo virtual, o cartão de plástico irá sumir?
PARO NETO – O cartão não vai sumir, mas terá outras aplicações. Por questões culturais, muitas pessoas não abrem mão de portar o plástico. Há, também, o programa de relacionamento. Gerar pontos é pouco, não é só isso que o consumidor quer. Esse é o grande desafio.

DINHEIRO – Programa de relacionamento é um custo ou gera receita?
PARO NETO – Gera receita, sim, é um negócio. Como uma bandeira de cartão, não quero simplesmente falar para o cliente “olha, você não quer vender o meu cartão?” Tenho de levar uma solução inteira e fazer com que o negócio seja cada vez mais rentável, em um mercado muito competitivo.

DINHEIRO – Quem define as prioridades no Brasil? O sr. ou a matriz?
PARO NETO – É um mix. A MasterCard tem 50 coisas novas para serem lançadas. Não lançarei tudo no Brasil, só alguns produtos, pois cada país tem sua característica. Nós sabemos respeitar as particularidades. Nosso negócio tem flexibilidade. E fazer gestão de pessoa é uma coisa local. Então eu diria que é muito mais aqui do que lá.

DINHEIRO – O sr. é o quarto brasileiro a presidir a MasterCard no País. Ser brasileiro facilita o seu trabalho?
PARO NETO – Não tenho dúvida disso. Facilita o entendimento do mercado, embora tenhamos colegas estrangeiros tão competentes quanto os brasileiros.

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