Museu do Cartão de Crédito

12/09/2014 - Jacob quer fazer negócios com você

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Rosenildo Gomes Ferreira | Estocolmo | Isto É Dinheiro

A fala mansa, o semblante tranquilo e o jeito afável de falar com os interlocutores dizem muito sobre a personalidade do sueco Jacob De Geer, 39 anos, um empreendedor serial que se tornou um dos ícones corporativos do país escandinavo. Primeiro, na efervescente Estocolmo, cidade que vem se firmando como a capital da inovação da Europa. Depois no mundo, graças ao lançamento da iZettle, empresa que criou um dispositivo móvel capaz de transformar smartphones e tablets em centrais de transação financeira.

Em apenas três anos, o leitor de cartões de crédito e de débito, lançado em 2011, já responde por milhões de transações em sete países do Velho Continente, além de México e Brasil. Por aqui, onde desembarcou somente no ano passado, em parceria com o Banco Santander, a iZettle também está fazendo bonito. Conquis­tou 100 mil usuários e é responsável por 40% dos pagamentos móveis realizados no País. Mais que um produto ou uma tecnologia, De Geer diz ter lançado um modelo de negócios inovador. “Todo o processo de desenvolvimento levou em conta a ótica do usuário e do empreendedor”, disse à DINHEIRO, após um talk show realizado no showroom da Volvo, na capital sueca, cujo tema foi inovação.

“Nossa ferramenta ajuda os microempreendedores a se desenvolver.” Segundo ele, um de seus principais méritos foi perceber que 20 milhões de microempresários, apenas na Europa, não tinham acesso a sistemas de pagamentos eletrônicos. Hoje, um em cada três dos 300 mil pontos de venda na Suécia, que aceitam cartão de crédito, utiliza o sistema iZettle. O lançamento do produto envolveu uma engenhosa estratégia de marketing destinada a gerar barulho a partir de situações do dia a dia. Algumas maquininhas foram distribuídas para os sem-teto de Estocolmo, que ganham uns trocados com a venda de uma revista cultural, a Situation Stockholm, pelas ruas do centro velho e da zona central da cidade.

Muitos deles perdiam dinheiro porque os suecos simplesmente não carregam notas ou moedas na carteira. Em 2012, as cédulas e moedas de coroa sueca responderam por ínfimos 2,75% das transações no país. Montante muito abaixo do verificado na Zona do Euro (9,8%) e nos Estados Unidos (7,2%). A própria mulher de De Geer, Nicole, viveu esse problema na pele. No final de 2009, após um dia de trabalho em uma feira na qual montara um estande para a comercialização de óculos de sol, ela comentou com o marido que poderia ter vendido bem mais, se aceitasse cartão de crédito.

De Geer se ofereceu para ajudá-la e o casal fez um périplo por bancos e operadoras de cartão de crédito para saber da possibilidade de usar um sistema móvel. “Todos me disseram que seria impossível e que, caso desse certo, custaria muito caro”, afirma De Geer. Para ele, esse discurso se chocava frontalmente com a realidade de um país que se tornou a meca da inovação na Europa – embora abrigue apenas 2% da população do continente, os suecos são responsáveis por 15% das patentes registradas. Foi a senha para que o empreendedor decidisse se lançar numa nova empreitada.

Até porque, a única opção do mercado em leitor de cartão para celular, o Square, não aceitava cartões com chip, dispositivo usado pela quase totalidade dos cartões que circulam na Suécia. A iZettle é a terceira startup criada por De Geer em sete anos. Começou com a ContentPay, de distribuição de filmes pela internet, e depois lançou uma agência de mídia, a Tre Kronor. A iZettle abriu as portas em abril de 2010 praticamente com dois funcionários: De Geer e seu sócio Magnus Nilsson. Hoje, continua enxuta e emprega cerca de 100 profissionais de alto nível, metade dos quais engenheiros e o restante é formado por executivos de vendas e marketing.

Em novembro de 2011 a dupla chamou a atenção dos investidores. A primeira injeção de recursos foi de US$ 11,2 milhões provenientes da Index Ventures. Desde então, aconteceram outras duas rodas que atraíram gigantes do porte de Mastercard e American Express, além da britânica Zouk Capital. No total, a iZettle recebeu aportes de US$ 172,9 milhões. Desse total, o San­­tander entrou com US$ 6,3 milhões. Foi graças a essa parceria com os espanhóis que De Geer desembarcou no Brasil. Suas maquininhas são a base do serviço de Conta Conecta do banco. Até agora, eles não têm do que reclamar.

“O sistema completa nosso portfólio de serviços e nos ajuda a atingir um número maior de clientes”, diz Pedro Coutinho, vice-presidente de novos negócios do Santander. Atualmente, o grande filão tem sido formado por profissionais liberais: advogados, personal trainnings e arquitetos. De acordo com o CEO da subsidiária da iZettle, Anders Norinder, as expectativas daqui para a frente são ainda mais positivas e a ideia é ampliar o leque de clientes. “Já no primeiro mês de operação conseguimos conquistar 35 mil usuários”, afirma. A praticidade foi outra sacada do fundador da iZettle.

No Brasil, o leitor custa R$ 99, cada transação é taxada em até 5,99% e o crédito em conta se dá dois dias após a transação. Fora isso, o sistema transforma o smartphone em uma central de dados que ajuda na gestão do negócio a partir da emissão de relatórios de venda, por exemplo. “Nossos clientes não pagam um centavo sequer por isso”, afirma o CEO da filial brasileira. Ao agregar serviços, a iZettle escapa do inevitável processo de comoditização, pois consegue se diferenciar da concorrência. Pensar grande sem ignorar os pequenos tem sido um dos mantras de De Geer.

Discreto tanto na vida privada quanto na profissional, o fundador da iZettle, que nas horas livres gosta de jogar tênis e esquiar com a mulher e os três filhos, não revela quanto já amealhou com suas tacadas empresariais. Ele não abre nem mesmo os números ligados aos negócios. Um comportamento típico dos suecos que, em sua maioria, são movidos mais pelo desafio do que pelo volume de dinheiro que poderá entrar em suas contas bancárias.

Trata-se de uma visão diametralmente oposta à dos empreendedores novos-ricos do Vale do Silício, que cultivam a ostentação e o consumo conspícuo. De Geer, aliás, rejeita o título de o “Steve Jobs sueco”, comumente usado por jornalistas, preferindo passar a honraria ao fundador do Skype, seu conterrâneo Niklas Zennstrom. “A tecnologia só faz sentido quando torna a vida das pessoas mais fácil”, diz De Geer. “Meu grande desafio é lançar iniciativas que façam isso se tornar realidade.”

 

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