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08/07/2014 - Avanço da Elo amplia reserva de mercado em cartões

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Por Felipe Marques | De São Paulo
 
 
Quatro anos depois da quebra da exclusividade no mercado de cartões, os bancos protagonistas do segmento conseguiram instaurar uma nova reserva de mercado. Antes pequena, ela tem se expandido rapidamente e preocupa o Banco Central, que regula o setor. A estratégia de proteção envolve quatro nomes: Elo, Hiper, American Express (Amex) e Agrocard - três bandeiras de cartão e um produto voltado para o agronegócio - que só podem passar em máquinas da Cielo ou da Rede (ex-Redecard). Desse quarteto, é a Elo quem avança em uma velocidade impressionante e dá mais urgência ao debate.
 
Os quatro produtos representaram cerca de 10% do volume capturado pelo mercado de cartões no primeiro trimestre (R$ 223 bilhões), segundo executivos ouvidos pelo Valor. E traçam um paralelo incômodo ao que se observava no mercado brasileiro até julho de 2010, quando apenas a Cielo podia capturar cartões Visa e a Rede, MasterCard.
 
 
Essa é uma estratégia que só foi possível porque os grandes bancos brasileiros, principais emissores de cartão, também são sócios das credenciadoras. O Itaú Unibanco controla a Rede e emite os cartões da Hipercard e da bandeira Hiper. O Banco do Brasil (BB) e o Bradesco, controladores da Cielo, se uniram em 2011 à Caixa para erguer do zero a bandeira Elo. O Bradesco é o dono da Amex no Brasil e o BB criou o Agrocard para atender sua base de clientes do agronegócio. Em todos esses casos, o emissor privilegiou sua própria credenciadora para capturar os cartões.
 
Graças ao tamanho de seus três emissores, a Elo vem caminhando a passos largos e se firma como uma bandeira nacional, em contraposição às internacionais Visa e MasterCard. A Elo não divulga dados oficiais, mas cálculos do Goldman Sachs estimam que a bandeira movimentou R$ 9,2 bilhões nos três primeiros meses do ano, o equivalente a 4,3% do mercado, ou 7,7% do volume capturado pela Cielo. Um ano antes, a bandeira movimentava R$ 1,5 bilhão. Desses volumes, 90% seriam compras com cartão de débito. Nem a Elo nem a Cielo comentam as projeções.
 
Há quem veja essas exclusividades como um dos grandes limitadores da competição num setor altamente concentrado. "A estratégia dos bancos emissores de cartões com essas bandeiras é direcionar um fluxo de transações que estava aberto e que todos podiam capturar, para um sistema exclusivo", afirma um alto executivo do setor. Desde 2010, cartões das bandeiras MasterCard e Visa passaram a ser capturados tanto por Cielo quanto pela Rede ou qualquer outro novo participante do setor (Santander, Elavon, Global Payments ou Banrisul).
 
No caso da Elo, Bradesco e Banco do Brasil têm emitido cartões para novos correntistas com a bandeira - algo monumental considerando-se a quantidade de folhas de pagamento dos dois bancos. Ao mesmo tempo, essas instituições têm migrado algumas bases de clientes para a nova bandeira à medida que vencem os cartões antigos. Foi o caso do cartão BNDES e do Agrocard, que antes era emitido com a marca Visa e agora vêm sendo substituídos pela bandeira Elo. Ao mesmo tempo, o Itaú negocia para começar a emitir unidades Hiper em suas parcerias com o varejo, no lugar de bandeiras internacionais. Procurados, BB, Bradesco e Itaú não comentaram.
 
Vale lembrar que o mercado de cartões de benefício (vale-refeição e alimentação), que está fora dos R$ 223 bilhões movimentados no crédito e débito, também tem suas exclusividades, com os cartões da Ticket capturados apenas pela Rede e a Alelo, que também pertence ao Bradesco e ao BB, pela Cielo.
 
Desde que se tornou oficialmente o regulador do setor, no ano passado, o Banco Central (BC) intensificou a pressão pelo fim das exclusividades, chamando atenção para necessidade de "interoperabilidade" no setor. O objetivo é fomentar a concorrência no segmento e eliminar a necessidade de um lojista ter mais de uma maquininha para aceitar cartões no balcão, caso queira receber todo tipo de meio de pagamento eletrônico.
 
Em 2011, o BC, junto com outros órgãos do governo, enviou uma carta à Abecs, associação do setor, cobrando a abertura plena do mercado. Nos anos seguintes, o diretor de Política Monetária do BC, Aldo Mendes, voltou a cobrar a iniciativa em eventos públicos. A autoridade monetária, porém, não estabeleceu uma data para que a abertura ocorra. Procurado, o BC não concedeu entrevista.
 
Sem um prazo determinado para o fim das exclusividades, porém, há dúvidas entre executivos de credenciadoras sobre quanto tempo levará para a abertura completa. A Abecs afirma que as negociações estão ocorrendo e que o processo não deve passar da segunda metade de 2015. "A Abecs apoia e estimula as iniciativas privadas de negociação nesse sentido", afirma Ricardo Vieira, diretor-executivo da associação.
 
Esse cronograma, contudo, não é consenso. "Falta intenção do mercado em abrir as bandeiras, já que a demora beneficia algumas empresas", afirma executivo de uma credenciadora, que avalia que as negociações estão em um estágio "embrionário". "Há uma assimetria entre os participantes dessas negociações, o que dificulta as conversas e faz tudo demorar."
 
Na visão dele, a questão da exclusividade em cartões pode acabar tendo destino semelhante à que existia no crédito consignado para servidores públicos, em que um acordo entre o BB e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) foi necessário para abrir o mercado.
 
"A Elavon formalizou o interesse de capturar novas bandeiras no início de 2014. Até o presente momento, a empresa continua aguardando uma posição das bandeiras para poder evoluir e ofertar livremente o maior número de opções a seus clientes", afirmou o presidente da credenciadora, Antonio Castilho, em nota. A Elavon começou a operar no Brasil em 2011, com o Citi, mas não chega a capturar nem 1% das transações no mercado.
 
O Santander, mais relevante entre os novos participantes do segmento, com 5,8% de mercado, preferiu não se manifestar sobre a questão das exclusividades.
 
"Nossa visão é que o impacto competitivo dessa abertura só deve vir em meados de 2016", afirma Carlos Macedo, analista do Goldman Sachs responsável pelos cálculos acima. Macedo lembra que o processo de regulação do mercado de cartões, de uma maneira geral, se deu de forma lenta, com os primeiros questionamentos públicos do regulador sobre o tema em 2006.
 
Mesmo quem alega que as negociações avançaram neste ano pondera que ainda não há consenso sobre a forma como a abertura será feita. São estudadas duas opções. A mais provável é adoção do modelo conhecido como serviço de transporte de dados (VAN, na sigla em inglês), em que a Rede e o Santander poderiam capturar Elo, por exemplo, mas quem processaria e liquidaria a transação seria a Cielo. Nesse modelo, a taxa de desconto do lojista (MDR) fica com a Cielo, que paga um valor fixo, de centavos por transação, para a credenciadora que capturou o cartão. "Esse modelo ajuda a proteger o racional econômico de se ter uma bandeira nacional", afirma um executivo. Amex e os vouchers de alimentação usam esse formato hoje.
 
A segunda alternativa, menos provável, é que as bandeiras hoje fechadas sejam abertas como foram Visa e MasterCard em 2010. Nesse modelo, qualquer credenaciadora capturaria, processaria e liquidaria a transação. O período de adaptação tecnológica, porém, é mais demorado.
 
 
Fonte: Valor

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